PREOCUPAÇÕES E INCERTEZAS

Navegávamos em mar calmo com algumas formações nebulosas, pequenas tempestades. Relampejava, a trovoada fazia barulho, mas continuávamos firmes. Vinham tempos de calmaria. Debruçávamos no convés, bronzeando ao sol, bebendo água de coco, olhando a nau deslizar sobre as ondas, seguindo o seu caminho. A tripulação trabalhava e olhava o horizonte, esperançosos por dias felizes em terra firme.

De repente uma massa escura começa a vir em direção à nau. Todos esperavam que fosse uma nuvem passageira. Mas a tempestade veio aos poucos, trazendo muito vento, chuva, sulcando as ondas. O medo se apoderou das nossas almas e as preocupações e incertezas encheram nossas cabeças.

O que fazer?

É assim que vejo o nosso país, diante dos fatos recentes. Todos estávamos trabalhando com afinco, com esperança, com denodo, acreditando que dias melhores seriam breves. Mas eis que surgem fatos estranhos, escabrosos, denuncias, delações, investigações, homicídios, agressões, motins, tramas, mensalões, corrupção, compra de votos, negociatas, CPIs, invasões, greves, desmandos, falta de autoridade. O povo sofre com a velha ferida que parece se tornar uma úlcera tórpida.

A fraqueza do governo brasileiro na questão com a Bolívia demonstra claramente uma política externa retrograda com sérios reflexos internos. Como disse o embaixador Rubens Ricupero “a soberania não pode ser uma camisa que você veste e despe, conforme o governo”. Erros de avaliação, de negociação, reuniões solapadas, extemporaneidade, marcam esse episódio que pode trazer sérios problemas no seu rastro.

Aprendi no banco da escola que o Barão do Rio Branco, José Maria da Silva Paranhos Junior, foi um devotado pan-americanista, solucionando amigavelmente vários litígios fronteiriços, com defesa intransigente e firme dos interesses nacionais. Ao que se vê hoje necessitamos de homens como este grande brasileiro do passado.

Aparentemente este fato parece ser isolado. Mas a influencia e conseqüências podem trazer um certo desconforto na política da América do Sul e já traz no seu desarranjo um olhar de preocupação dos Estados Unidos.

Com ele vieram outros fatos que no mês que passou trouxeram uma atenção especial e preocupante, como a violência em São Paulo que transpôs os muros do Estado para aterrorizar e colocar as famílias brasileiras em situação débil, sujeita a boatos e incertezas.

As greves se arrastam pelo país e afetam nossos trabalhos que dependem dos funcionários públicos para serem realizados. É greve na Anvisa, é greve no MAPA, é greve na SRF. E o que tem a iniciativa privada com o setor publico? É obvio que existe uma dependência entre esses setores, autorizando, fiscalizando, arrecadando. A via é de mão dupla. Entretanto o setor privado é o único que é punido com essas paralisações. Senão vejamos: o governo não deixa de arrecadar; o serviço que o setor publico foi pago para executar, não o faz, porque os servidores estão parados; o custo de mercadorias importadas crescem, triplicam ou quadruplicam, em função das armazenagens que não deixam de multiplicar; crescem com as quebras de contratos de fornecimento e compromissos assumidos anteriormente; há desabastecimento de produtos; quem paga a conta é a iniciativa privada e na ponta o povo brasileiro.

Houveram promessas dos senhores ministros que firmaram compromisso com setores trabalhistas e de classes, que não cumpriram após mais de ano de trégua, rasgando suas promessas, lançando-as no lixo sem nenhum comprometimento, sem nenhum alento, sem nenhuma esperança. Trapalhadas e confusões ministeriais parecem não afetar o Presidente que segue firme escudado.

Segue a nau fortemente deficitária, gastando mais do que pode, pressionando preços e salários, com recessão de consumo e de investimentos, com uma presença cada vez mais forte do Estado desequilibrado.

A nau encontrará um porto firme para ancorar com segurança ou terá que voltar ao porto de onde partiu para retomar a viagem?